A profissão dos pais e o que esperam dos filhos deles

O papel da vida individual, familiar e parental desenrola-se na peça teatral da vida em que o guião é escrito a várias mãos com constantes variáveis a surgirem e que exigem reposicionamentos e ajustes constantes e sem certeza de um final feliz (seja lá o que isto queira dizer para cada um).

A sociedade, cada um de nós (que somos parte integrante e constituinte da sociedade) cede com muita frequência às expetativas que desenvolve sobre o outro e sobre si mesmo.

Com isto convido à reflexão da responsabilidade individual que temos de agir de acordo com aquilo que sentimos e acreditamos, em vez de ser estar tolhidos por formatações e apriori’s rígidos. Eu sei! Um pouco utópico, mas vamos lá!


Damos voltas e voltas em torno da igualdade, da inclusão, da aceitação de cada um e de uma série de palavras inspiradoras como estas, mas muitas vezes julgo que acontece, um certo aprisionamento a visões um pouco redutoras da realidade.

É comum (mas nem por isso, aceitável) a ligação de sinais de pobreza, baixos hábitos de trabalho, zonas de habitação de risco, a pessoas mais problemáticas, pais problemáticos, crianças também elas, supostamente, problemáticas, com dificuldades de aprendizagem, etc.
Sabemos que os fatores de risco podem ser maiores, mas também sabemos de fatores protetores (ligações afetivas, estrutura familiar de apoio, diálogo, consciência e empenho na educação dos filhos para que possam «ser alguém na vida», como é frequente ouvirmos). Nada é tão linear como alguns procuram traçar.

Claro que, quando falo disto e das expetativas negativas, não é exatamente o mesmo que ter uma expetativa de que o metro chegue na hora prevista, que tenha contas para pagar até ao dia 8 de cada mês.

Assim, girando um pouco o mesmo prisma, parecem depositar-se expetativas nos filhos de pais de determinadas áreas profissionais:

É suposto…

que o filho de um apresentador de televisão ou ator seja eloquente e extrovertido?

Que o filho de um médico esteja poucas vezes doente?

Que o filho de um psicólogo não tenha questões emocionais para resolver?

Que o filho de um cabeleiro não tenha a franja a entrar nos olhos?

Que o filho de um advogado/juiz não cometa ilegalidades?

Que o filho de um professor não tenha dificuldades em aprender as matérias?

Será que é suposto?
 

Já dizem os ditados populares «Em casa de ferreiro espeto de pau» ou «Santos da casa não fazem milagres».

Não se esqueçam as crianças serão sempre crianças e os pais a comportar-se como qualquer pai que está a construir-se no papel, independente do pano de fundo.
 

A formação de base pode preparar para certas questões, mais informação, mais conhecimento, mas ser pai e mãe é um trabalho, uma tarefa, um sonho, que é vivido e sentido na imprevisibilidade de cada dia, numa lufa-lufa de improvisos e reações sem guião orientador.

O papel da vida individual, familiar e parental desenrola-se na peça teatral da vida em que o guião é escrito a várias mãos com constantes variáveis a surgirem e que exigem reposicionamentos e ajustes constantes e sem certeza de um final feliz (seja lá o que isto queira dizer para cada um).


Afinal de contas nesta coisa da Parentalidade, independentemente dos contextos, somos confrontados com conquistas e dificuldades mais semelhantes do que muitos julgam.

Texto escrito para a B de Brincar por

Ana Oliveira

Psicóloga Clínica e Terapeuta Familiar e de Casal

 

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